Em período eleitoral, até as tragédias podem acabar virando argumento para as diferentes coligações em disputa. Apesar de esperado, esse comportamento precisa ser reavaliado, e toda a sociedade deve se pronunciar a esse respeito.
Algumas questões exigem reflexão: qual é o limite da exposição da dor? Ou, até que ponto é legítimo recorrer ao sofrimento dos cidadãos para colocar em pauta o tema da segurança pública? A recente tragédia do jovem que voltava para sua casa em companhia do seu pai, morto por um policial, provocou uma série de manifestações.
A gravidade dessa ação, totalmente, fora do controle, e do que se deve esperar de um policial, é inquestionável. Como é também inquestionável, e legítima, a dor, a revolta, o sentimento de total frustração, a indignação diante de ter sido, tão brutalmente, tirada a vida de um jovem cidadão.
A segurança pública é tema fundamental, obrigatório, nos debates políticos em período de campanha, e principalmente, nos embates durante o exercício do poder. É questão que diz respeito a todos os cidadãos, que preocupa toda a sociedade. Porém, todo cuidado é pouco para que tragédias como essas não sejam transformadas em “matéria de campanha”, sem o devido respeito que o tema requer.
O enfretamento da violência urbana, em todas as suas formas, exige ações imediatas, ações de médio e longo prazo, de diferentes níveis, de diferentes naturezas. Da repressão à educação; da reforma do sistema penitenciário brasileiro; da formação qualificada dos que irão garantir a segurança; da articulação entre município, estado e governo federal, e muito mais. Não é obra de um único governante, nem de uma única gestão.
Nada disso exime de responsabilidade, diante do ocorrido, o governador do Estado, o secretário de segurança pública, a polícia como instituição. O debate sério, é bem vindo, pois o problema é muito grave, e exige compromisso de todos. Propostas e projetos devem ser apresentados para além da disputa pelo poder, visando, realmente, encontrar caminhos para que haja segurança pública efetiva, real, consistente. Aqueles que têm compromissos, verdadeiros, com a sociedade, devem contribuir para que esses caminhos sejam construídos, consolidados, efetivados, ganhando ou não eleição.
A crítica deve ser feita, as responsabilidades têm que ser assumidas, os responsáveis têm que ser punidos, a autocrítica também é necessária. Sobretudo, é urgente encontrar soluções para que tragédias como estas não se repitam, e para que, o direito à vida, à liberdade e à segurança, sejam, efetivamente, garantidos, como anseiam todos os cidadãos.

Lélia Lis é analista política da TV Jangadeiro